Entrevista de Artur Lopes para o Portal Dedução em 30 de novembro de 2016

Com a instabilidade na economia brasileira, os gestores precisam redobrar a atenção sobre suas empresas, uma vez que a conjuntura desfavorável pode ameaçar a sobrevivência do negócio. Embora prevenir seja sempre o melhor caminho, nem sempre há tempo ou condições de salvar a operação. “Mas nem tudo está perdido: também é possível safar-se da crise com estratégias de recuperação e consolidação empresarial elaboradas por especialistas no assunto.

Em entrevista ao Portal Dedução, o advogado e sócio da Artur Lopes & Associados, consultoria especializada em salvar a “vida” de outras companhias, Artur Lopes, garante: a vida das empresas é desafiada também por episódios circunstanciais, tais como “modificação de tendências de consumo, modernização de produtos ou meios de produção, imobilização de recursos, ausência de capacidade gerencial e/ou má administração, ingresso de novos concorrentes no mercado, entre outros”.

Com a instabilidade na economia brasileira, os gestores precisam redobrar a atenção sobre suas empresas?

O Brasil tem uma economia, embora mais estável do que no passado, ainda muito oscilante. Sucedem-se, no País, grandes ciclos de expansão e contração econômicos e os gestores precisam não somente de atenção, mas também de capacitação na medida em que a concorrência não é mais local, e sim global.

Prevenir é sempre o melhor caminho?

Sim, a prevenção é sempre o melhor caminho. Falar sobre prevenção, entretanto, soa genérico. No ambiente corporativo a prevenção se dá pela implementação e gerenciamento de ferramentas de controle, de indicadores.

Como o Contador pode ajudar o empresário a escapar da crise?

A Contabilidade no Brasil para as pequenas e médias empresas, infelizmente, sempre foi tida como um “encargo” e pouco utilizada como ferramenta de gestão. Porém, tal visão já começou a mudar. Atualmente, em virtude do combate à informalidade com a crescente adoção de mecanismos eletrônicos para emissão de notas, os sistemas de gestão se impuseram como realidade. Como decorrência disso, a Contabilidade, então preterida, passou a ser contemplada nas prioridades da empresa e seu uso como ferramenta de gestão tem se tornado mais frequente. Hoje, tal ciência é indispensável para as empresas de todos os portes e segmentos.

Em sua opinião, a incerteza é e continuará sendo a tônica do cenário nacional?

Infelizmente, a incerteza vai imperar num futuro próximo, pois além das variáveis internas, como as implementações de medidas saneadoras da economia, instabilidade política, entre outros fatores, surge no cenário, agora, uma incerteza planetária que reside no comportamento da maior economia do mundo, a americana.

É possível recuperar o fôlego financeiro e tirar a empresa do vermelho?

Como regra sim, muito poucos negócios são irrecuperáveis. Os negócios cronicamente inviáveis normalmente padecem de obsolescência de produtos ou de meios de produção. Na condução de processos de reestruturação é fundamental o entendimento da empresa no aspecto global – variáveis mercadológicas, produtivas, perfil do endividamento, entre outros, para que sejam postas em curso medidas saneadoras convergentes e uníssonas. Para que o processo de superação da crise se complete com êxito a empresa deverá entender qual é o seu tamanho no mercado, dimensionar sua estrutura reduzindo-a, sempre que possível, projetar o seu resultado e, com base nele, negociar o passivo.

A vida das empresas está sendo constantemente desafiada, independente da crise?

Num passado não muito remoto, a derrocada de uma companhia demandava anos. Apesar de sinais evidentes, havia, ainda, a margem de manobra permitida por uma economia fechada. Atualmente, além do processo de globalização econômico, a informatização, a eficiência dos mecanismos de crédito e a concentração do mercado financeiro são fatores que aceleram a ruptura de uma empresa em dificuldades. Ou seja, há sim constantes ameaças a perpetuidade dos negócios.

Como é o trabalho de gestão de crise?

O trabalho de gestão de crise é, por essência, uma tarefa multidisciplinar. Embora a feição mais evidente da crise seja a escassez financeira, não são raras as situações onde colocar mais dinheiro na operação significa perder mais e, consequentemente, agravar o problema. A situação financeira muitas vezes é consequência, não causa do problema.

O trabalho de gestão de crise exige, portanto, conhecimentos múltiplos e, acima de tudo, credibilidade no mercado financeiro, pois além de implementar ações saneadoras, a empresa em crise reclama regularidade de financiamento.

Como é feito o processo de recuperação empresarial?

O processo de reestruturação é um trabalho intenso. Por ser multidisciplinar, repito, deve congregar todas as áreas da companhia. Além da diminuição de despesas, da racionalização das operações, do reposicionamento comercial, é fundamental que se trate o passivo, adequando o seu perfil à capacidade de pagamento da empresa. Assim, o passivo pode ser redesenhado amigavelmente, mediante acordos com bancos, credores e até mesmo trabalhadores ou, se isso não for possível, a empresa pode recorrer a um processo de recuperação judicial. Além dos desafios anteriormente mencionados, o processo de reestruturação deve ser coerente o suficiente para atrair os capitais necessários para o financiamento das operações.

Quais os motivos mais comuns que levam à falência das empresas?

Posso dizer que dificuldades operacionais, equívocos, insucessos todas as empresas enfrentam. Na minha experiência, o que leva a quebra é a falta de reconhecimento dos equívocos e a capacidade de implementar, rapidamente, ações corretivas. Em suma, a covardia em implementar medidas saneadoras e o apego ao conhecido é que ensejam a bancarrota.

Muitos empresários não sabem nem quanto estão devendo nem para quem estão devendo. Neste sentido, qual é a importância de identificar os principais credores e como funciona cada uma das dívidas – multas, juros, se há ou não possibilidade de renegociação?

A resposta completa demandaria um compêndio. Nesse sentido, a experiência evidencia que sempre é possível uma empresa renegociar suas obrigações, até porque a satisfação do crédito, via judiciário, é demorada e onerosa. Temos, portanto, que alguma negociação é alcançada, porém nem sempre a negociação obtida é satisfatória, se cabe na capacidade de pagamento da empresa. Desse modo, se a negociação satisfatória não puder ser alcançada pela via negociada a empresa poderá recorrer ao Judiciário que, por intermédio de um processo de recuperação judicial, irá mediar a capacidade de pagamento do devedor com a razoabilidade do retorno econômico ao credor.

O que deve ser feito antes de renegociar as dívidas, já que toda a receita não pode ser comprometida com o pagamento desses débitos, criando mais dívidas?

Na verdade, qualquer processo de reestruturação, qualquer redesenho do endividamento, deve ser precedido de um amplo diagnóstico que indicará a capacidade de pagamento e, consequentemente, o prazo de pagamento do débito.

Fonte: http://www.deducao.com.br/index.php/como-escapar-da-crise-com-estrategias-de-recuperacao/